NON DVCOR DVCO

O aniversário da cidade que conduz e não se deixa ser conduzida.

É sempre lindo andar na cidade de São Paulo
O clima engana, a vida é grana em São Paulo (São Paulo, São Paulo – Premeditando o Breque

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São Paulo, a locomotiva desenfreada, a acolhedora e insana cidade que nunca dorme, que muito se consome, que tudo presencia, comemora os seus 463 anos.

São Paulo cresceu tanto com o café que acho que ficou dependente da cafeína. É como eu vejo a cidade que pertenço. Essa é sensação quando vejo que Sampa nunca pára… A energia excessiva que movimenta veias e artérias do trânsito cotidiano, mas que nada parece ofuscá-la por completo.

Quem é paulistano sabe… Somos bipolares, ora odiamos, ora amamos… tudo ferozmente. Há gosto para tudo, culturas misturadas ou culturas mais direcionadas. Há o deslumbre dos luxos e a simplicidade da sobrevida da natureza nas mais belas demonstrações.

E, nada melhor que enaltecer São Paulo senão as citações dos poemas de Mário de Andrade, escritor literário modernista, também fanático por sua terra. Seus poemas são, na realidade, verdadeiras declarações de amor pela cidade.

Tem-se como uma de suas principais obras, que remonta momentos históricos, tal como a Semana de Arte Moderna, a Paulicéia Desvairada, consistente numa coletânea de poemas abordando, principalmente, os costumes na cidade paulistana, incluindo críticas.

Poemas Mário de Andrade:

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“INSPIRAÇÃO”

“SÃO PAULO ! comoção de minha vida …
Os meus amores são flores feitas de original…
Arlequinal! … Traje de losangos… Cinza e ouro…
Luz e bruma… Forno e inverno morno…
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes…
Perfumes de Paris… Arys!
Bofetadas líricas no Trianon… Algodoal!…
SÃO PAULO! comoção de minha vida…
Galicismo a berrar nos desertos da América!”

 

“POEMAS DA AMIGA”

“A tarde se deitava nos meus olhos
E a fuga da hora me entregava abril,
Um sabor familiar de até-logo criava
Um ar, e, não sei porque, te percebi.

Voltei-me em flor. Mas era apenas tua lembrança.
Estavas longe doce amiga e só vi no perfil da cidade
O arcanjo forte do arranha-céu cor de rosa,
Mexendo asas azuis dentro da tarde.

Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus amigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade…

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade…

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus”.


“PAISAGEM Nº 1”

“Minha Londres das neblinas finas!

Pleno verão. Os dez mil milhões de rosas paulistanas.

Há neve de perfumes no ar.

Faz frio, muito frio…

E a ironia das pernas das costureirinhas

parecidas com bailarinas…

O vento é como uma navalha

Nas mãos dum espanhol. Arlequinal!…

Há duas horas queimou sol.

Daqui a duas horas queima sol.

Passa um São Bobo, cantando, sob os plátanos,

Um tralalá… A guarda‑cívica! Prisão!

Necessidade a prisão

Para que haja civilização?

Meu coração sente‑se muito triste…

Enquanto o cinzento das ruas arrepiadas

Dialoga um lamento com o vento…

Meu coração sente‑se muito alegre!

Este friozinho arrebitado

dá uma vontade de sorrir!

E sigo. E vou sentindo,

à inquieta alacridade

da invernia,

como um gosto de lágrimas na boca…”

 

“ANHANGABAÚ”

“Parques do Anhangabaú nos fogaréus da aurora…

Oh larguezas dos meus itinerários!…

Estátuas de bronze nu correndo eternamente,

num parado desdém pelas velocidades…

O carvalho votivo escondido nos orgulhos

do bicho de mármore parido no Salon…

Prurido de estesias perfumando em rosais

o esqueleto trêmulo do morcego…

nada de poesia, nada de alegrias!…

E o contraste boçal do lavrador

que sem amor afia a foice…”

 

“MOMENTO”

“Ninguém ignora a inquietação do clima paulistano…

Pois tivemos hoje uma arraiada fresca de neblina.

 

Depois do calorão duma noite maldita, sem sono,

Uma neblina leviana desprendeu das nuvens lisas

E pousou um momentinho sobre o corpo da cidade.

Ôh como era boa, e o carinho que teve pousando!

Não espantou, não bateu asa, não fez nenhuma bulha,

Veio, que nem beijo de minha mãe se estou enfezado

Vem mansinho, sem medo de mim, e pousa em

[minha testa.

Assim neblina fez, e o sopro dela acalmou as penas

Desta cidade histórica, desta cidade completa,

Cheia de passado e presente, berço nobre onde nasci.

Os beijos de minha mãe são tal‑e ‑qual a neblina

[madruga…

Meu pensamento é tal‑e ‑qual São Paulo, é histórico

[e completo,

É presente e passado e dele nasce meu ser verdadeiro…

Vem, neblina, vem! Beija‑me, sossega‑me o meu

[pensamento!”

 


“Ruas do meu São Paulo,

Onde está o amor vivo,

Onde está?

Caminhos da cidade,

Corro em busca do amigo,

Onde está?

Ruas do meu São Paulo,

Amor maior que o cibo,

Onde está?

Caminhos da cidade,

Resposta ao meu pedido,

Onde está?

Ruas do meu São Paulo,

A culpa do insofrido,

Onde está?

Há‑de estar no passado,

Nos séculos malditos,

Aí está”.

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E para esticar um pouco mais a modernidade da Paulicéia desvairada, também destacarei músicas que bem descrevem esse sentimento febril e enérgico.

Mesmo que fiquemos estressados, nunca a renegamos.

Eu vou ficar por lá
Até o mundo acabar
Eu vou curtir, vou agitar
Eu vou me esbaldar
Enquanto o mundo durar
Enquanto a água não secar
Enquanto a pedra rolar
A festa vai continuar
Até o mundo acabar

A Paulicéia devairou
A Paulicéia pirou, pirou
A Paulicéia devairou
A Paulicéia pirou, pirou
A Paulicéia devairou
A Paulicéia pirou, pirou
A Paulicéia devairou
A Paulicéia pirou, pirou (Paulicéia Desvairada, por Made in Brazil)

São, São Paulo meu amor
São, São Paulo quanta dor
São oito milhões de habitantes
De todo canto em ação
Que se agridem cortesmente
Morrendo a todo vapor
E amando com todo ódio
Se odeiam com todo amor
São oito milhões de habitantes
Aglomerada solidão
Por mil chaminés e carros
Caseados à prestação
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito
São, São Paulo
Meu amor
São, São Paulo
Quanta dor
Salvai-nos por caridade
Pecadoras invadiram
Todo centro da cidade
Armadas de rouge e batom
Dando vivas ao bom humor
Num atentado contra o pudor
A família protegida
Um palavrão reprimido
Um pregador que condena
Uma bomba por quinzena
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito
São, São Paulo
Meu amor
São, São Paulo
Quanta dor
Santo Antonio foi demitido
Dos Ministros de cupido
Armados da eletrônica
Casam pela TV
Crescem flores de concreto
Céu aberto ninguém vê
Em Brasília é veraneio
No Rio é banho de mar
O país todo de férias
E aqui é só trabalhar
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito
São, São Paulo
Meu amor
São, São Paulo (São, São Paulo, por Tom Zé)

Tem dias que eu digo “não”
Inverno no meu coração
Meu mundo está em tua mão
Frio e garôa na escuridão…

Sem São Paulo
O meu dono é a solidão
Diga “sim”
Que eu digo “não”… (São Paulo, por 365)

 

 

Foto capa de André Bonacin, em http://www.panoramio.com/photo/38650685

Letras extraídas do site http://www.letras.mus.br

 

 

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