Inanimado

cravo.jpgBut in the process I forgot, that I was special too” (X-Static Process, Madonna)

 

Inanimado

 

Ás vezes os momentos de reflexões que nossa razão nos impõe não são revigorantes. Nem sempre nos confortam e nem sempre nos melhoram.

Uma sensação de algo falho está na decepção de si mesma de tentar ser o que já não lhe cabe mais.

De procurar agradar e se aprumar o quanto pode para alguém mais próximo; o escolhido para uma vida toda e perceber ser mais desejada por olhos estranhos e repulsivos que àqueles que pretendeu impressionar.

De cansar em mostrar o caminho de seu despedaçado coração, demasiado romântico, camufladamente petrificado e, mesmo assim, a pessoa perder-se por suas trilhas e pistas deixadas, ou melhor, declaradas.

E aí você percebe que as pegadas não fincam mais e se pergunta: por interferência alheia?

Mas daí é fácil ser taxada de insana porque, em verdade, a maioria não consegue acompanhar aquilo que você antevê e nada pode fazer.

É que a dor que sente não é apenas física, mas também sentimental.

Desfila com o seu salto 10cm. como se os pisos se machucassem mais que seus pés couraçados de tanto caminhar.

Suas mãos besuntadas de creme de delicada fragrância como para atenuar mãos que carregam pesos exagerados e roupas grossas que, com afinco, são esfregadas.

Mãos…

Daí você percebe que é o seu rosto a procurar as mãos que facilmente acariciava a face que nunca deixará de ser carente.

Perceberá, ainda, que já utilizou de todos os seus dotes para convencê-lo em viver o mais rápido possível ao seu lado, mas os olhos de seu amado, por muitas vezes, ainda parecem imparciais.

Olhos…

Aqueles mesmos olhos evasivos que te olham com indiferença quando os seus chamam por um terno acolhimento; um resigno, mas que procuram enxergar dentro de você o seu sofrimento, a sua tristeza contida; um ar orgulhoso de reprovação. Mas para qual fim, senão o maltrato desnecessário?!

Talvez porque o ser de voo errante que se desespera em querer entrar num lar hoje não é mais visto como ninfa, mas de desbotada mariposa.

Você quando se sente feliz?

É complicado quando não mais consegue tirar sorrisos de alguém que te conhece tanto, mas talvez não o bastante.

Isso te frustra ao máximo. Sente-se um bobo da corte a rir da própria tristeza.

Daí você conclui que, de um modo geral, quando mais se dá, menos se recebe.

…. É que tudo parece tão… inanimado…

…. Que a astúcia não tem lugar para a burrice;

…. Que a vaidade não tem lugar para o desleixo;

…. Que o carinho não tem lugar para o vazio…

Por um breve momento a sensação de desmaio parece vestir a única forma momentânea de paz.

Quero ler Carlos Drummond de Andrade, mas o faço substituir por Álvares de Azevedo.

É que tudo parece tão… inanimado.

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