A Menina Que Não Sabia Ler – Volume 2

É prova de inteligência saber ocultar a nossa inteligência(Françóis de La Rochefoucauld)

Mas vou lhe dizer uma coisa: os livros e a literatura são bons para a mente. São a base de toda a educação. São fonte de cultura. Quem quer que lhe tenha dito algo diferente, quem quer que a tenha proibido de desfrutar dessa fonte de conhecimento não pode ser uma boa pessoa” (p. 92).

 

Eu me sinto em casa com todos estes livros em torno de mim. É como estar entre amigos. (…) Quem tem imaginação, senhor, nunca será prisioneiro” (p. 213).

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O livro deixa claro que dissimulação e discreta inteligência é uma questão de sobrevivência e de que tudo possui um momento certo para agir, mesmo que as consequências não sejam previsíveis.

Para quem leu a primeira obra pode ter demorado para se encaixar na trama que, de longe, não parece ser uma sequência. É literalmente insano, maluco.

O segundo volume aborda detalhadamente o funcionamento de um hospício que é, nada mais nada menos, que a estranha propriedade é a mesma do primeiro volume.

Somente depois se tem a certeza de que Florence é uma das internas, embora pareça completamente presumível, né. Mas a ideia de como foi tida por louca fica a cargo do leitor.

A imersão em água fria não vai consertar um cérebro danificado. Por isso, desse ponto de vista, não, ela não estará curada” (p. 18)

O machismo permanece manifesto na história, principalmente nos tratamentos a que são submetidas para conterem momentos rebeldes. Claro que a rebeldia não poderia ser mais previsível, sabendo da sujeição à tratamentos de banhos de água praticamente congelada, mordaças, etc.

Enfim, o sanatório é de difícil acesso, não há como fugir, reservado apenas para mulheres e com tratamento extremamente indigno, desumano, desprezível.

IMG_3217.JPGEstou certo de que não podemos ter esses luxos. O Estado financia essas coisas para os infratores, mas não para loucos, infelizmente” (p.20).

 

“- Ela está aqui há trinta anos, chegou muito antes de eu vir para cá – comentou ele, sorrindo com minha expressão de surpresa. – Faz sempre a mesma pergunta todas as vezes que me vê; não percebe que jamais voltará para casa” (p. 22).

 

“… uma das mulheres começou a gritar, provocando uma reação em outra, que começou a cantar, com uma voz bela e triste, e por um instante pareceu que a tristeza da canção era um reflexo de seu estado de espírito(p. 25).

 

A maioria murmurava ou resmungava, cantando horrivelmente fora do tom; algumas delas, no entanto, cantavam muito bem. Uma vez, ao entrar na sala, fiquei parado onde estava, incapaz de dar mais um passo, ao ouvir uma voz solitária cantando ‘Escutai! Os anjos do arauto cantam!’ com uma voz cristalina como a água pura de uma fonte. Foi como se tivesse levado um murro no peito; fiquei sem respiração, os olhos cheios de lágrimas. Senti-me absolutamente impotente enquanto ela continuava a cantar. Parecia resumir toda a esperança do mundo, e isso me fez sentir muita compaixão por alguém ainda poder expressar tanta esperança mesmo preso em um lugar como aquele” (p. 238).

E a ideia que se tem é a de que somente mulheres possuiriam surtos psicóticos, erroneamente diagnosticados, para lá serem levadas e nunca mais saírem, como uma espécie deturpada de castigo.

Olhei ao redor e vi mulheres roubando o pão de outras, que ficavam sem nada. Morgan observava tudo isso com tamanha indiferença que comecei a perder a fá na humanidade, até reparar em uma interna, uma jovem, quase menina, com cabelos escuros compridos caídos sobre o rosto, praticamente encobrindo-o, dividindo o seu pedaço de pão com a mulher sentada a seu lado, cuja porção havia sido roubada. A mulher aceitou a oferta nervosamente e retribuiu com um sorriso, o primeiro que eu via naquele lugar. Nesse momento, como se sentisse o peso do meu olhar, a garota ergueu a cabeça e me encarou de um modo que me fez sentir um frio na espinha. Havia sabedoria naquele olhar, como se visse através de mim e reconhecesse o que eu era, enxergando algo que lhe permitia reivindicar uma semelhança” (p.27).

O trecho supra é marco para o desenrolar do conto, narrada pelo homem que, em verdade, nada tem de bondoso e que jamais saberia a importância de nunca subestimar alguém.

galinhaDaí pra frente muitas coisas sombrias e articulosas acontecem, incluindo a situação de John Shepherd, que se complica cada vez mais em sua personalidade que tenta justificar como uma infância problemática.

gralha.jpgUm ponto cômico e sarcástico que senti ao ler a obra foi quanto à abordagem de transformar substantivos em verbos ou o emprego distorcido das palavras que assim fossem pronunciados por Jane Pomba, mas que o sentido e coerência continuavam presentes. Cito algumas: “sarjaram”, “poltronar”, “impermitido”, “inimportante”, “deslembrei”, “desgostaria de sentar”.

Enfim, a obra é muito boa e diferente de muitos desencadeamentos que leio. A história se prolonga de uma forma inimaginável, mas alimenta o suspense de forma positiva.

Porém, peças ficaram faltando ao conto, como alguns dos poucos personagens que remanesceram no livro anterior, principalmente o irmão de Florence, Giles.

O final do conto me fez lembrar um pouco dos últimos capítulos de novelas; tudo meio picado e corrido. O destino de Florence ocorre das curtíssimas páginas finais, mas vale e muito a leitura.

Já até imagino uma adaptação para o cinema.

Ficha técnica:

Título original: “The girl who couldn’t read”

Editora: Leya

Tradução: Elvira Serapicos

Capa/Imagem: Christiano Menezes; Retina 78

Gênero: Ficção – literatura inglesa

ISBN: 978-85-441-0019-6

Edição: 2014

Páginas: 287

 

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