A Menina Que Não Sabia Ler, de John Harding

Esse livro é a dica que já queria ter divulgado por aqui.

“…pior que erva daninha cheira o lírio que apodrece” (p. 98).

Li em algum lugar que o tédio gera grandes ideias e assim foi comigo” (p. 33).

Eu seria a abelha do seu piquenique. Estragaria seus planos. Não desistiria. Não fui feita para isso” (p. 192).

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De todos os livros “da moda”, ou seja, aqueles em que encontramos várias pessoas lendo as mesmas obras no transporte público, parques, etc, jamais me deparei com pessoas lendo A Menina Que Não Sabia Ler, embora ainda seja muito fácil de ser encontrado nas livrarias.

Claro que o título não colabora muito e afasta de pronto, aqueles que julgam o livro pelo nome ou qualquer forma externa de visualização. Eu também pensava isto, mas tenho sempre o costume de ler atentamente a sinopse e permitir que o autor me embale nas histórias.

Por isso que são raríssimos os livros que compro e descarto. Aliás, dos livros que eu já comprei isto nunca me ocorreu.

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A história se baseia na antiga Inglaterra de 1891, em que uma garota chamada Florence e seu irmão mais novo, Giles, vivem numa enorme propriedade afastada do centro de Londres, sendo sustentados por um tio que sequer conhecem, mas que apenas repassa subsídios para que criados os mantenham nas condições necessárias.

O problema é quando uma nova preceptora surge para cuidar pessoalmente deles, após a morte ainda suspeita da babá predecessora. Florence, a garota não se dá por satisfeita sobre as intenções da estranha e assustadoramente astuta cuidadora e percebe na mulher um ardiloso plano de rapto de seu irmão, passando a se socorrer de todos os recursos para evitar tal ocorrência.

Sua figura esquelética estava vestida toda de preto, e pensei em quanto aquilo era estranho, pois a srta. Whitaker havia me dito que todas as preceptoras sempre vestiam cinza, mas percebi como combinava com as gralhas que agora estavam circulando acima de nós, como se elas também tivessem vindo especialmente para dar as boas-vindas a ela” (p. 88).

A conclusão é que a perseguição, inclusive intelectual, que lhe é provocada, a torna ensandecida.

Além da trama e, justificando o título, que me parece um belo sentido à trama, Florence é impedida de ter acesso aos estudos, fadada a contemplar apenas tarefas mais domésticas a uma mulher, para que não experimente qualquer ideia de independência feminina, ou seja, evitar o acesso à cultura e conhecimento para que se torne subjugada frente ao gênero masculino. Mas a curiosidade, audácia e interesse à leitura lhe são muito mais instigantes e Florence aprende, sozinha e em segredo, o dom da leitura.

Então ali estava eu, princesada em minha torre, cobertada em minha escrivaninha, tremendo um pouco quando soprava o vento, mas só e podendo ler, pelo menos ate começar a escurecer, porque não poderia ter velas delatoras ali. De repente, senti uma pontada, pensando – não sabia por que – em Giles, longe na escola, talvez pensando em mim, e perguntei-me se estaria feliz. Lembrei que uma vez havia cortado em duas uma carta – a rainha de espadas -, bem no meio, pensando em fazer duas rainhas de uma, uma imagem em cima e a outra embaixo, mas descobri que havia ficado sem nenhuma, com duas partes inúteis por si só, e pensei que assim era eu sem Giles, que era uma parte da minha pessoa” (p. 36)

Florence aparenta interesses maduros, onde o escritor lhe reserva uma personalidade bastante irônica, principalmente com as constantes visitas de um garoto raquítico amorosamente interessado por Flo que, despreza as tentativas de sedução inocente do fragilizado Téo.

“- Bem – ele disse, finalmente -, aqui estamos.

– Parece que sim – atirei de volta.

– Está muito frio lá fora. Muita neve.

– Fria e branca – eu disse.

(…)

– Escrevi outro poema para você.

O olhar que lancei em sua direção era vários graus mais frio que a neve e quase suficiente para fazê-lo fugir de volta para lá” (p. 40-41).

Subestimação, ar fantasmagórico e suspense parecem ser palavras termos que descrevem bem o deslinde da história, com influências de Edgar Allan Poe.

Ficha técnica:

Título original: “Florence and Giles”

Editora: Leya

Tradução: Elvira Serapicos

Capa/Imagem: Christiano Menezes; Retina 78 / Getty Images

Gênero: Ficção – literatura inglesa

ISBN: 978-85-62936-11-1

Edição: 2010 – 14ª reimpressão

Páginas: 282

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