A Cabana, de William P. Young

Este best-seller possui um desenrolar muito distinto de tantos outros livros que já li e não esperava que a trama mudasse tanto assim de sentido.

A história que começa tensa, agoniante e vingativa, logo se torna questionadora, esperançosa e reconfortante.

O livro que recebe um bom toque policial e de suspensa, logo se revela e, até que bruscamente, numa abordagem simples e religiosa.

Ademais, aborda a personalidade frágil, descrente e mesquinha de um pai que busca vingança sobre a filha raptada e morta por um serial killer, onde se culpa pelo descuido de sua filha enquanto acampados numa vasta região florestal.

IMG_2341.JPG“Mack continuava parado junto à margem, ainda tentando recuperar o fôlego. Demorou alguns minutos antes de pensar em Missy. Lembrando-se que ficara colorindo o livro, subiu pela margem até onde podia ver seu acampamento, mas não havia sinal da menina. Apressou o passo correndo até a barraca, chamando seu nome o máximo de calma que conseguiu. Não houve resposta. Ela não estava ali” (Capítulo 4 – A Grande Tristeza, p. 43).

“A imagem de sua filha lutando com algum monstro pervertido foi como um soco no estômago. Quase sucumbindo ao negrume súbito que ameaçava esmagá-lo, Mack se apoiou na mesa para não desmaiar ou vomitar. Foi então que notou um broche de joaninha cravado no livro de colorir” (Capítulo 4 – A Grande Tristeza, p. 48).

IMG_2344“Estamos tentando pegar esse cara há quase quatro anos, perseguindo-o em mais de nove estados. Recebeu o apelido de Matador de Meninas, mas nunca repassamos o detalhe da joaninha para ninguém, portanto mantenha isso em segredo (…) A cada vez ele acrescenta um ponto à joaninha, de modo que esta seria a de número cinco. Ele sempre deixa os broches em algum lugar da área do sequestro…” (Capítulo 4 – A Grande Tristeza, p.50)

“Mack sabia que precisava de respostas. Percebeu que estava travado e que as orações e os hinos dos domingos não serviam mais, se é que já haviam servido. A espiritualidade do claustro não parecia mudar nada na vida das pessoas que ele conhecia (…) Mack estava farto de Deus e da religião, farto de todos os pequenos clubes sociais religiosos que não pareciam fazer nenhuma diferença expressiva nem provocar qualquer mudança real. Mack certamente desejava mais. Porém não sabia que estava a ponto de conseguir muito mais do que havia pedido” (Capítulo 4 – A Grande Tristeza, p. 59)

Sua resignação e conversas mantidas diretamente com Deus, personificado numa grande mulher negra e extremamente irradiante propõe saber que para Ele não há distinções, somos todos iguais, sem preconceitos e tentativas de identificar uma imagem concreta para sua feição.

Provoca-nos uma forma de buscar maior aproximação Dele e da própria oração.

O livro, simplesmente, se torna sublime, permitindo que seja lido de coração aberto, num estado de espírito livre, acolhido e reservado, chamando-nos a atenção sempre para a compaixão.

E muito disso também se destaca na perrengue desafio que Mack tem de ter ao encontrar com a “Juíza”, até mesmo para descarregar todo o seu inconformismo com tudo o que sofrera e até mesmo com a humanidade.

 “A negra enorme pegou o casaco e ele lhe entregou a arma, que ela segurou com a ponta dos dois dedos, como se aquilo estivesse contaminado” (Capítulo 5 – Adivinhe quem vem para jantar, p. 74).

Você será o juiz.

— O quê? EIMG_2345.JPGu? IMG_2346.JPG— Fez uma pausa. — Não tenho nenhuma capacidade de julgar.

— Ah, não é verdade — foi a resposta rápida, agora tingida por um leve sarcasmo. — Você já se mostrou bastante capaz, mesmo no pouco tempo que passamos juntos. E, além disso, já julgou muitas pessoas durante a vida. Julgou os atos e ate mesmo as motivações dos outros, como se soubesse quais eram. Julgou a cor da pele, a linguagem corporal e o odor pessoal. Julgou histórias e relacionamentos. Até julgou o valor da vida de uma pessoa segundo seu conceito de beleza. Em todos os sentidos, você é bastante treinado nessa atividade.

— Então quem devo julgar?

— Deus. — ela fez uma pausa — e a raça humana. — Disse como se isso não tivesse importância especial. As palavras simplesmente rolaram de sua língua, como se fosse um acontecimento cotidiano.

— Você só deve estar brincando! – exclamou.

Por que não? Sem dúvidas há muitas pessoas no seu mundo que você acha que merecem julgamento. Deve haver pelo menos algumas culpadas por boa parte da dor e do sofrimento, não é? Que tal os gananciosos que exploram os pobres do mundo? Que tal os que promovem as guerras? Que tal os homens que agridem as mulheres, Mackenzie? Que tal os pais que batem nos filhos sem qualquer motivo além de aplacar seu próprio sofrimento? Eles não merecem julgamento, Mackenzie?”(Capítulo 11 – Olha o juiz aí, gente, p. 145-147).

Em geral, a proposta do autor é, indubitavelmente, para que nós, leitores, façamos nosso exame de consciência de como estamos conduzindo nossas vidas e do pré-julgamento demasiado que fazemos de tudo e de todos, às vezes se desapegando de nossa própria fé.

A parte policial da trama, de investigação é instigante, assim como no momento em que conhece Papai.

Há também aquele raciocínio subjetivo que, inevitavelmente, podemos sentir de que, quando algo está se saindo perfeitamente bem é porque alguma outra coisa pode acontecer de ruim.

Uma história que retrata bem o fato de que coisas negativas acontecem por um bem maior, sem que precisemos compreender.

Ficha técnica:

Título original: The Shack

Editora: Sextante

Tradução: Alves Calado

Capa: Marisa Ghiglieri, Dave Aldrich e Bobby Downes

Gênero: Mudança de vida – Ficção. Crianças desaparecidas – Ficção. Ficção americana, Literatura religiosa.

ISBN: 978-85-99296-36-3

Edição: 2008

Páginas: 236

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