Frankenstein, de Mary Shelley

Dia Nacional do Livro coincidindo + final de mês aqui no favo = a resenha de livros já lidos por mim.

E com o Halloween borbulhando por aí, nada mais peculiar que indicar a leitura de Frankenstein, famosíssimo e assustador personagem e também o primeiro livro de literatura de horror e escrito por uma mulher.

Mary Shelley (1797-1851) tinha apenas 19 anos quando escrevera tal obra e publicado dois anos depois. Sua vida real se assemelha com partes de sua obra: Shelley, por quem Mary se apaixonara, era casado e só puderam se unir após a misteriosa morta da mulher de Shelley (corpo encontrado boiando num rio), donde se mudaram para a Suíça, região englobada por onde viveu seu dramático e condenado personagem.

Sua obra surgiu por meio de uma aposta entre ela, seu então marido e um amigo em comum, para ver quem conseguiria escrever uma história de terror. Mary foi a única a cumprir com o trato.

A literatura inglesa certamente nos presenteia com a nata de escritores, principalmente durante o início do século XIX. Assim, Mary Shelley se enquadra na era das escritoras bem aclamadas até hoje em todo o mundo, tais como Emily Brontë e Jane Austen.

IMG_6117 IMG_6120“A vida pode ser apenas uma sucessão de tristezas, mas eu a prezo e pretendo defendê-la” (p. 47/48)

“Minha alma transbordava de amor. Mas a intolerância me ensinou a odiar”

“Se meu próprio criador me abomina, disse o monstro, o que posso esperar dos outros? Todos me enxotam e me odeiam. As escarpas são o meu refúgio. Meu lar são as cavernas de gelo, em que o homem não ousa penetrar. E, para mim, as tempestades de neve são mais amigas do que qualquer ser humano. Se a humanidade soubesse de minha existência, faria como você: se armaria para destruir-me” (p.48)

 

IMG_6122 IMG_6121“O velho, que só depois percebi ser cego, dedicava longas horas a seu instrumento ou à meditação. Nada parecia superar o amor e o respeito que os mais jovens tinham por seu companheiro” (p. 63)

 

“O velho, por sua própria vontade, ficou sozinho na cabana. Meu coração bateu mais depressa. Era a hora da decisão. Sem pensar mais, deixei o chiqueiro e bati á sua porta”

“Aquele esplêndido homem estranhou o que eu dizia, mas procurou animar-me. Disse que, de fato, muitas pessoas se deixam levar por preconceitos, mas que o mundo dispõe também de criaturas cujos olhos não se deixam turvar por essas nuvens” (p. 82)

 

“Quais eram os valores mais estimados pelos humanos? Uma família importante, associada à propriedade de riquezas. Um homem seria respeitado apenas se atendesse a uma dessas condições ou ambas” (p.74)

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“A diferença era que, criado pelas mãos de Deus, Adão resultara numa criatura perfeita, próspera e feliz, protegida com carinho por seu Criador. Quanto a mim, era um desgraçado, solitário e desprezado” (p. 79)

 

“Cada gesto de repugnância ao lidar com os materiais apodrecidos que resultariam em mim, Cada detalhe – por mais asqueroso – de minha maldita origem” (p.79)

 

Frankenstein é uma belíssima obra. Particularmente é a minha 2ª predileta, apenas atrás de O Morro dos Ventos Uivantes (que já postei aqui).

E, por favor, quem ainda não leu, deixe o preconceito e leia!

Embora esteja enquadrado no gênero de horror, Frankenstein é, sem dúvida, muito mais dramático que assustador.

Ele mescla até conceitos de anatomia e medicina legal, mas a monstruosidade é atribuída à Victor Frankenstein, o doutor que montando partes do corpo de pessoas a pouco falecidas, faz ressuscitar sua criação, com ajuda natural de eletricidade (e o desfibrilador ainda nem tinha sido inventado, hein).

Portanto, o monstro mesmo é Victor e não aquele ser criado em laboratório para satisfazer o ego de criação (o “brincar de Deus”) idealizado por seu criador.

Nesta obra, por exemplo, podem-se estabelecer questões da ética-médica/genética, por exemplo, tal como ocorre atualmente com a clonagem.

Também aborda a questão de olharmos para alguém como se objeto fosse, pouco importando com os sentimentos alheios.

Afinal, até quando nossas qualidades e pensamentos benevolentes podem aguentar tamanha recusa de outrem para nos aceitar como realmente somos?

Até quando podemos viver sem sermos contaminados pelas ações ruins de uma sociedade, que se enquadra em estereótipos?

Qualquer característica física que fuja dos padrões imaginários de perfeição da maioria serve para condenar sumariamente alguém ao exílio.

É sublime e reconfortante a narrativa do “monstro” sobre as sensações da vida, dos sentidos e de saber apreciar os encantos simples da natureza que o Homem não costuma valorizar.

Por todo o momento, o “monstro” tenta imitar e fazer se sentir como parte da Criação divina, mas ele mesmo acaba por se assustar, porque o criaram com intuito grotesco, experimental e egoísta, vindas das mãos de Victor.

Há de se identificar até mesmo um ponto de vista religioso sobre tal estória, no sentido do Homem querer ou se portar de forma cada vez mais desgarrada de Deus que, para muitos, diz-se que somos feitos à semelhança de Deus. Mas o desvio do Homem não faz proporcionar tal feito, criando monstro à sua verdadeira imagem interior, daquele que erra e comente atrocidades.

Por isso ressalto: antes de horror, o livro de proposta extremamente metafórica, é dramática.

O que nos torna monstruosos são as nossas atitudes e a nossa falta de empatia e compaixão ao próximo e não como somos fisicamente.

É aquela velha história da maçã estragada.

E o fato de nem termo oportunidade de nos expressar e de conquistar corações por conta da falta de sentimentos das demais pessoas é sentida a cada passagem do livro.

Recomendo e muito a leitura.

Eu só preciso dominar o idioma alemão para ler o livro novamente, porém versão auf Deutsch que já possuo.

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Ficha técnica:

Título original: Frankenstein, or the modern Prometheus

Editora: Cia. das Letras

Tradução: Ruy Castro

Desenhos: Silvia Massaro (capa) e Odilon Moraes (ilustrações)

Gênero: Horror

ISBN: 85-7164-398-9

Edição: 14ª reimpressão – 2003

Páginas: 131

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