Bichinho cabra da peste, uai – Zé Geraldo

Obs.: Eu quis introduzir este post com algumas frases das músicas, mas todos os trecho eu gosto por demais…

Zé Geraldo é um dos músicos da música brasileira que mais gosto, tanto pelo estilo musical, quanto pelo conteúdo de suas letras, tudo em perfeita sintonia, já que o ritmo enaltece ainda mais a profundeza da mensagem que pretende passar.

Em um de meus últimos posts, falei sobre o raciocínio de Raul Seixas, na forma como expressava os seus pensamentos e sentimentos.

E com Zé Geraldo não é diferente, embora tais músicas não sejam de sua exclusiva autoria.

De hábitos simples e fisionomia carismática, Zé Geraldo sempre fez questão de valorizar o sotaque mineiro em suas músicas, além de toda uma coloquialidade, com musicalidade própria.

Assim farei relação das músicas que mais gosto, todas expressando sentimentos que refletimos com muita frequência sobre fé (O Profeta), valorização do trabalho e preconceito (Cidadão), salários nunca compatíveis com nossas necessidades básicas (Milho aos Pombos), etc.

Vale muito a pena conferir todas as letras, com destaque para Cidadão, O Profeta e a super otimista Como Diria Dylan que, na minha opinião, são lindas!

Aliás, deixarei Como Diria Dylan por último, para que também fique como mensagem a todos os leitores para uma ótima semana! Se preocupe com o que você é e pensa de si mesmo e trabalhe sempre para melhorar. Não internalize o que as pessoas fracas querem que você seja. É um recado sincero e puro que posso dar a todos!

CIDADÃO

Tá vendo aquele edifício moço?

Ajudei a levantar

Foi um tempo de aflição

Eram quatro condução

Duas pra ir, duas pra voltar

Hoje depois dele pronto

Olho pra cima e fico tonto

Mas me chega um cidadão

E me diz desconfiado, tu tá aí admirado

Ou tá querendo roubar?

Meu domingo tá perdido

Vou pra casa entristecido

Dá vontade de beber

E pra aumentar o meu tédio

Eu nem posso olhar pro prédio

Que eu ajudei a fazer

Tá vendo aquele colégio moço?

Eu também trabalhei lá

Lá eu quase me arrebento

Pus a massa fiz cimento

Ajudei a rebocar

Minha filha inocente

Vem pra mim toda contente

Pai vou me matricular

Mas me diz um cidadão

Criança de pé no chão

Aqui não pode estudar

Esta dor doeu mais forte

Por que que eu deixei o norte

Eu me pus a me dizer

Lá a seca castigava mas o pouco que eu plantava

Tinha direito a comer

Tá vendo aquela igreja moço?

Onde o padre diz amém

Pus o sino e o badalo

Enchi minha mão de calo

Lá eu trabalhei também

Lá sim valeu a pena

Tem quermesse, tem novena

E o padre me deixa entrar

Foi lá que cristo me disse

Rapaz deixe de tolice

Não se deixe amedrontar

Fui eu quem criou a terra

Enchi o rio fiz a serra

Não deixei nada faltar

Hoje o homem criou asas

E na maioria das casas

Eu também não posso entrar

Fui eu quem criou a terra

Enchi o rio fiz a serra

Não deixei nada faltar

Hoje o homem criou asas

E na maioria das casas

Eu também não posso entrar

O PROFETA

O dia vai chegar

estou me preparando porque antevi

No livro que lhe empresto e você não aceita a verdade ali

Existe tanta gente por ai as tontas sem se definir

Na hora da balança O peso não alcança o que deve atingir

Hei Homem de Deus

Acorda é tempo ainda

Eis que teu tempo finda

Faz uma oração

Hei Homem de Deus

Deixa a incoerência

Em sua conferência

fale de perdão

Quem você não conhece é que vai conferir se você passa ou não

Esqueça o seu padrinho pois lá não tem carta de apresentação

O que vai influir é o bem que você fez ou deixou de fazer

Existe em cada estante um livro importante e você não quer ler

Quem sabe se o juiz não foi alvo de risos quando aqui passou

Sofrendo a indiferença, pagando tributos da classe ou da cor

Quem sabe se você não vai se ver chorando a mais tirana dor

E implorar baixinho aquela mesma ajuda que você negou

A vida é uma escola onde o viver é o livro e o tempo o professor

Onde alguns são sábios porém até hoje ninguém se formou

A única certeza é que o dia do acerto já está pra vir

Prepare a sua alma pois na hora certa você vai ouvir

O som de um instrumento que não se afina ao diapasão

Virá anunciando sem segundo aviso a hora da razão

Estou lhe reparando, estou lhe aconselhando porque quero ir

Você se nega a ler, erroneamente crê que a vida é só aqui

MILHO AOS POMBOS

Enquanto esses comandantes loucos ficam por aí

Queimando pestanas organizando suas batalhas

Os guerrilheiros nas alcovas preparando na surdina suas

Mortalhas

A cada conflito mais escombros

Isso tudo acontecendo e eu aqui na praça

Dando milho aos pombos

Isso tudo acontecendo e eu aqui na praça

Dando milho aos pombos

Entra ano, sai ano, cada vez fica mais difícil

O pão, o arroz, o feijão, o aluguel

Uma nova corrida do ouro

O homem comprando da sociedade o seu papel

Quando mais alto o cargo maior o rombo

Isso tudo acontecendo e eu aqui na praça

Dando milho aos pombos

Isso tudo acontecendo e eu aqui na praça

Dando milho aos pombos

Isso tudo acontecendo e eu aqui na praça

Dando milho aos pombos

Isso tudo acontecendo e eu aqui na praça

Dando milho aos pombos

Eu dando milho aos pombos no frio desse chão

Eu sei tanto quanto eles se bater asas mais alto

Voam como gavião

Tiro ao homem tiro ao pombo

Quanto mais alto voam maior o tombo

Eu já nem sei o que mata mais

Se o trânsito, a fome ou a guerra

Se chega alguém querendo consertar

Vem logo a ordem de cima

Pega esse idiota e enterra

Todo mundo querendo descobrir seu ovo de Colombo

Isso tudo acontecendo e eu aqui na praça

Dando milho aos pombos

Isso tudo acontecendo e eu aqui na praça

Dando milho aos pombos

DESCARRILHO

Não quero ser sustentador do mundo

Nem o pilar desta sociedade

Só garantir minha sobrevivência

Descer ao fundo desta ansiedade

Subir a tona deste fim de mundo

Buscar um pouco de tranquilidade

Não quero dar o que não poderia

Nem receber o que não deveria

O sinaleiro orientou errado

Errei o trilho e fiquei de lado

Pagar porém um juro assim tão alto

Era uma coisa que eu não merecia

Sou passageiro deste mesmo trem

para um destino tão ignorado

só que o sinaleiro orientou errado

Errei o trilho e fiquei de lado

Pagar porém um juro assim tão alto

Era uma coisa que eu não merecia

Sou passageiro deste mesmo trem

para um destino tão ignorado

DONA

Dona das tardes sombrias do início de março

Que amortece a caída das folhas do outono

Dona da estrada de terra que abraça os meus passos

E do fio que tece a rede que embala

Que embala o meu sono

Faz do meu canto de saudade

um acalanto na cidade

(Faz do meu canto de saudade

um acalanto na cidade)

Dona do amor que aquece as noites de inverno

Faz o vento soprar em pleno verão

Dona que faz do meu pranto um sorriso eterno

Leva o barco da vida pros mares mais calmos

Leva os sonhos nas mãos

Faz do meu canto de saudade

um acalanto na cidade

(Faz do meu canto de saudade

um acalanto na cidade)

Dona que traz no semblante a expressão do meu verso

Dona da força que altera um placar adverso

Dona do anteprojeto que traça e define o meu ponto futuro

Dona da lei que abole a vergonha do muro

Oh Dona!

Que consegue fazer transbordar o meu peito

com o ar puro da serra

Oh Dona!

Da palavra final do último ato

Do acordo de paz entre os homens da terra

OVELHA PERDIDA

Esse orvalho que me toca o rosto tem

o gosto do sal

O sal grosso do resto do coxo

lá do seu curral

Esse orvalho que me molha morno

só me faz lembrar

O choro lento que a curva do tempo

já deixou pra trás

Esse tempo me deixou tão rude

hoje não choro mais

Isso aqui anda tão sujo

Bem mais sujo que um grande curral

Com tanta boca tá faltando coxo

Tá faltando sal

Esse tempo não calou meu canto

mas secou meu pranto

já não choro mais

Ando pela vida,

ovelha perdida

entre os cafezais

Esse tempo me deixou tão rude

Já não choro mais

Ando pela vida,

ovelha perdida…

PROMESSAS DE UM IDIOTA ÀS 6 DA MANHÃ

Momento que aponta e revela

a cor da poesia

Ainda resta um pedaço da noite

Teimosa empurrando a barra do dia

Já se ouve os primeiros pardais

afinando a orquestra

É o início do dia de dor e de festa

Retrato inverso da Ave Maria

E eu prometo aderir ao sistema

Olhar a vitrine, o cartaz do cinema

Trocar minhas rugas de preocupações

pelo céu de Ipanema

Prometo viver a intenção do passado

Manter este corpo faceiro ao meu lado

O ar de menina sapeca e levada

do cabelo molhado

Falta pouco pra seis horas da manhã

É gente correndo atrás do destino e da compensação

Daqui a pouco são seis horas da manhã

Cada um no seu canto

vivendo do canto,

do acordo e do não

E eu prometo aviar a receita

do bolo da sorte, da boa colheita

Matar a angústia dessa juventude

Tão insatisfeita

Prometo trilhar o caminho mais certo

Cidadão comportado

ordeiro e correto

Dividir minha cama com a mulher amada

no momento deserto

Falta pouco…

SENHORITA

Minha meiga senhorita eu nunca pude lhe dizer

Você jamais me perguntou

de onde eu venho e pra onde vou

De onde eu venho não importa, já passou

O que importa é saber pra onde vou

Minha meiga senhorita o que eu tenho é quase nada

Mas tenho o sol como amigo

Traz o que é seu e vem morar comigo

Uma palhoça no canto da serra será nosso abrigo

Traz o que é seu e vem correndo, vem morar comigo

Aqui é pequeno mas dá pra nós dois

E se for preciso a gente aumenta depois

Tem um violão que é pra noites de lua

Tem uma varanda que é minha e que é sua

Vem morar comigo meiga senhorita

Doce meiga senhorita

Vem morar comigo

Aqui é pequeno…

GALHO SECO

Eu andava acabrunhado e só

Perdido e sem lugar

Feito um galho seco

Arrastado pelo temporal

Pensei até em enrolar minha bandeira e dar no pé

Eu pensei até em jogar fora a minha história, os documentos e aquela fé

Fazia tempo que o sol não derramava luz na minha vidraça

Depois que tudo passa

O vento leva as nuvens negras noutra direção

Também pudera

Uma hora era o fogo que rasgava o chão

Outra hora era a água que descia e afogava toda a plantação

Ainda bem que me restou o seu sorriso

Que me alumia a alma

Que me acalma quando é preciso

E como eu preciso!

Como eu preciso

Que me acalma quando é preciso

E como eu preciso

Eu andava acabrunhado e só…

LÍRICO-ROMÂNTICO-POÉTICO

Olá você

Que carrega nas costas um fardo pesado

que a estrada do tempo amarelou

Que anda nas ruas olhando pro chão

sem coragem de olhar pro ancião que passou

Que deixou sua barba crescer

e voltou a usar sua roupa surrada

Que pensou que era dono de tudo

e hoje uma simples palavra te mostra

que o saldo atual é nada

Olá você

Que julgou conhecer os atalhos

(caminhos de quem desconhece

porteira fechada)

Que cruzou velhos mares

montanhas e rios

até despertar nesta encruzilhada

Que usou do poder sem poder

E avocou para si a palavra final

Que pensou que era dono de tudo

e o seu tudo te mostra na fria palavra

que o saldo atual é nada

Mas e daí ô cara

você tem que saber

Que apesar de tudo que anda acontecendo por aí

você ainda pode ser

Lírico, romântico, poético

e ainda ouvir

o barulho do trem na hora do amor

Uma lata de cerveja bem gelada

Um hambúrguer em plena madrugada

Guardar este velho coração curtido

Lembrar o que já foi dito

“Palavras são palavras”

que muitas vezes não dizem nada

QUEM NASCE ZÉ NÃO MORRE JOHNNY

Quem nasce Zé não morre Johnny não

Quem nasce Zé não morre Johnny não

Quem nasce Zé não morre Johnny

Quem nasce Zé não morre Johnny não

Tem coisas que não entendo bem

Também não dá pra entender

A gente nasce e cresce

Pensando em ser alguém de bem

E chega o dia de sair da terra

E de partir pra guerra

em busca de aventuras

De repente na cidade grande

A salada é grande com a nossa cultura

(Severino e Zefa

não vão ser chamados

Bonnie & Clyde não)

Quem nasce Zé não morre Johnny não

Quem nasce Zé não morre Johnny não

Quem nasce Zé não morre Johnny

Quem nasce Zé não morre Johnny não

Tem coisas que não entendo bem

E quem entende se assusta e treme

O F…

é o mesmo que FIM

Os caras chegam pra emprestar dinheiro

Oh que gesto altaneiro e digno de glória

De repente se dão o direito

de fuçar a nossa vida

mudar nossa história

(O nosso Lampião

não pode ser chamado

de Al Capone não)

Quem nasce Zé não morre Johnny não

Quem nasce Zé não morre Johnny não

Quem nasce Zé não morre Johnny

Quem nasce Zé não morre Johnny não

Tem coisas que não entendo bem

E quem entende se assusta e treme

O F…

é o mesmo que FIM

Os caras chegam pra emprestar dinheiro

Oh que gesto altaneiro e digno de glória

De repente se dão o direito

de fuçar a nossa vida

mudar nossa história

(Maria Bonita

não vai ser chamada

Beautiful Mary não)

UAI BICHINHO

Quando cheguei nessa terra

Com uma mão na frente a outra atrás

O corpo comprava briga

A alma clamava paz

Meu companheiro de pensão vivia falando

Oxente bichinho cabra da peste

E eu retrucava uai uai

Um chamava pela mãe

O outro gritava pai

Uai bichinho cabra da peste uai

De manhã corria cada um prum canto

Procurando uma colocação

Um comprava o diário popular

O outro lia o estadão

À noite notícias de casa

Novidades, saudades e beijos

A carta dele cheirava jabá

E a minha cheirava queijo

Uai bichinho cabra da peste uai

Domingo de manhã o sol bem quente

A gente ia tirar fotografia lá no ibirapuera,

Sabe como é?

Eu de camisa bordada no bolso

Sapato sem meia

Bem playboy

Meu parceiro de roupa de brim

Alpercata no pé

Quando dava três horas da tarde

O tempo virava

Pintava um bitelo dum frio

A gente tremia que nem vara de marmelo

E o pessoal dava risada de nós

Uma temporada meu parceiro foi passear na terra dele

Voltou aperreado porque os meninos de lá

Tavam falando gírias de copacabana

Eu disse pra ele,

Fique frio, parceiro. não se avexe não.

Isso aí é reflexo da televisão em rede, uai.

Afinal de contas

Pra quê curtir o nosso sotaque

O nosso folclore

Se logo logo a gente vai ter uma linguagem só

Padronizada

É um tal de oxente my love

Bah, my friend

É muito you pro meu uai, sô!

Já faz muito tempo que eu tô nesta terra

Muita coisa já ficou pra trás

Meu corpo cansado já não compra briga

Mas a alma ainda pede paz

Meu companheiro de pensão até hoje fala

Oxente bichinho cabra da peste

E eu continuo falando

Uai uai

Com as cacetadas destes anos todos

Eu fiquei mais velho que meu velho pai

Uai bichinho cabra da peste uai

UM SIMPLES OLHARZINHO SEU

A vida nos ensina a procurar os maiores tesouros nas coisas mais simples

O que a gente vai buscar bem longe muitas vezes pode estar do nosso lado

A gente sabe que é preciso

Um olhar, um sorriso

Um afeto, um agrado

Isto é força que ajuda a carregar o fardo

Eu falo por mim

Quando penso que é o fim

Quando eu acho que já não há estrada a seguir

Ou sonho a sonhar

Nessa hora eu sou um doido à procura

Do seu olhar

Tô sem trampo, tô sem grana

Tô sem sono e meu time perdeu

Pra falar a verdade

Bem mais da metade dos meus problemas

Eu resolvo

Com um simples olharzinho seu

SOLDADO UM

Eu sou um soldado comum

Na fila da frente

Sou Um

Que sabe saber enfrentar

Se for preciso sacrificar

Mais um café da manhã

Eu sou um soldado de fé

Nasci vendo a morte de pé

Me cabe viver se couber

Me acabe se eu não te disser

que te amo

COMO DIRIA DYLAN

Hei você que tem de 8 a 80 anos

Não fique aí perdido como ave

sem destino

Pouco importa a ousadia dos seus planos

Eles podem vir da vivência de um ancião

ou da inocência de um menino

O importante é você crer

na juventude que existe dentro de você

Meu amigo meu compadre meu irmão

Escreva sua história pelas suas próprias mãos

Nunca deixe se levar por falsos líderes

Todos eles se intitulam porta vozes da razão

Pouco importa o seu tráfico de influências

Pois os compromissos assumidos quase sempre ganham

subdimensão

O importante é você ver o grande líder que existe dentro

de você

Meu amigo meu compadre meu irmão

Escreva sua história pelas suas próprias mãos

Não se deixe intimidar pela violência

O poder da sua mente é toda sua fortaleza

Pouco importa esse aparato bélico universal

Toda força bruta representa nada mais do que um sintoma

de fraqueza.

O importante é você crer nessa força incrível que existe

dentro de você

Meu amigo meu compadre meu irmão

Escreva sua história pelas suas próprias mãos.

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