Toca Raul! Um poeta e visionário na música.

Dera o melhor significado ao termo Rock and Roll. LEIAM E OUÇAM SEM PRÉ-JULGAMENTOS.

raul seixasComo já declarei aqui no Favo, as músicas de Raul Seixas me acompanham desde sempre, pois tenho um pai aficionado por Raul e não é pra menos.

Não raro ver este artista, equivocadamente, associado a músicas diabólicas, mas, em verdade, vejo que era uma pessoa à frente do seu tempo, embora ninguém o visse como tal naquela época e também por ter tido uma história pessoal muito conturbada, muito provavelmente vinda da infância extremamente difícil que tivera, o que é muitíssimo comum no Brasil, infelizmente. Afinal, de tragédias e frustrações todos, certamente, têm uma boa história, e me incluo nisso, viu.

Raul Seixas abordava variados assuntos e ideologias em suas músicas, pois a cultivava como fonte de conhecimento e não simplesmente barulho aos ouvidos.20150807_091324

E digo mais: muitas de suas letras devem ser interpretadas com bastante carinho, dignas de serem acompanhadas, algumas até mesmo motivacionais. Quem nunca associou o espírito de superação com a música Tente Outra Vez?

Tinha, ainda, uma versatilidade própria, misturando vários estilos musicais, mesclados com o seu tradicional Rock and Roll, tais como a MPB, o forró e a música brega, assim percebidos nas músicas Let Me Sing, Let Me Sing e Tu És o MDC da Minha Vida.

Tratou do amar a pessoa errada, como nas músicas Babilina e A Maçã.

Porque quem gosta de maçã

Irá gostar de todas

Porque todas são iguais…

Abordou assuntos polêmicos como a filosofia ocultista e teocentrista de Aleister Crowley em Sociedade Alternativa e o IMG_5239machismo sobre a homossexualidade em Rock das Aranha, que chegou a ser proibida na época.

A ironia de que todo rock era associado ao diabo, fez com que abordasse tal fato nas músicas Rock do Diabo e DDI, com direito à crítica ao Governo em relação ao preço dos serviços de telefonia, como se fosse obra draconiana de ruim, tudo com seu jeito desprendido.

A arte cômica de lhe dar com improvisos e imprevistos e saber “dançar conforme a música” na vida em Como Vovó Já Dizia. E vale muito a pena ver a versão censurada.

Quem não tem visão

Bate a cara contra o muro

A música Aluga-se é, pra mim, uma das melhores composições e extremamente atual na crítica da postura do Governo Brasileiro, principalmente em relação à sua soberania para com os demais países.

A solução pro nosso povo

Eu vou dá

Negócio bom assim

Ninguém nunca viu

Tá tudo pronto aqui

É só vim pegar

A solução é alugar o Brasil!…

 

Os estrangeiros

Eu sei que eles vão gostar

Tem o Atlântico

Tem vista pro mar

A Amazônia

É o jardim do quintal

E o dólar dele

Paga o nosso mingau…

MAS O QUE MUITOS, TALVEZ, NÃO SAIBAM É QUE:

*** Raulzito fora, pra mim, quem melhor explicou, através da música mesmo, o significado do termo Rock and Roll estar associado ao sentimento de atitude.

A melhor tradução para a expressão Rock and Roll, está mesmo no sentido do rolar de pedras e não como denotam as gírias de “deite e role” ou “balance e role”, etc.

Afinal, pedras são feitas para rolar (isso é natural), servindo de metáfora sobre a continuidade de viver sem criar raízes, de se habituar e encarar as mudanças e obstáculos da vida, de se reciclar e se moldar sobre a própria personalidade… Enfim, atrelado ao fato de saber viver e nunca se acomodar ou conformar-se.

E, por isso, com intuito de pesar, Raul tem um trecho que adoro na música Medo da Chuva:

Aprendi o segredo, o segredo

O segredo da vida

Vendo as pedras que choram sozinhas

No mesmo lugar

Aí está a atitude que todos nós devemos ter. Sejamos a pedra que rola!

*** Raul gravara músicas em inglês, pouco conhecidas, como Sunseed, How Could I Know (Love Was to Go) e outras que também traduzira para o inglês, tal como Gita.

*** Raul também possui uma belíssima composição sobre a morte (o trem) e a aproximação do Bem e do Mau noutro plano, na música O Trem das 7:

Ói, ói o trem, vem surgindo de trás das montanhas azuis, olha o trem

Ói, ói o trem, vem trazendo de longe as cinzas do velho éon

Ói, já é vem, fumegando, apitando, chamando os que sabem do trem

Ói, é o trem, não precisa passagem nem mesmo bagagem no trem

Quem vai chorar, quem vai sorrir ?

Quem vai ficar, quem vai partir ?

Pois o trem está chegando, tá chegando na estação

É o trem das sete horas, é o último do sertão, do sertão

Ói, olhe o céu, já não é o mesmo céu que você conheceu, não é mais

Vê, ói que céu, é um céu carregado e rajado, suspenso no ar

Vê, é o sinal, é o sinal das trombetas, dos anjos e dos guardiões

Ói, lá vem Deus, deslizando no céu entre brumas de mil megatons

Ói, olhe o mal, vem de braços e abraços com o bem num romance astral

Amém.

*** Que ele reconhecia sua lamentável situação com o alcoolismo e fizera uma música biográfica sobre o que vivenciou após uma bebedeira que, conscientemente conseguira fazer com que uma nova música surgisse – Banquete de Lixo:

Às 3 horas da manhã na cidade tão estranha

Um palhaço teve a manha de um banquete apresentar

E era um latão de lixo transbordando em Nova Iorque catchup e caviar

E eu dormindo embriagado, um par de coxas do meu lado

E eu sem saber se devia ou não tocar

Se era estrangeira, mãe, esposa ou outra besteira

Que eu inventei de aprontar

Refrão:

O hoje é apenas um furo no futuro

Por onde o passado começa a jorrar

E eu aqui isolado onde nada é perdoado

Vi o fim chamando o princípio pra poderem se encontrar

Fui levado na marra, pois enfermeiro quando agarra

É que nem ordem de prisão

A ambulância me esperava, e aí o que rolava, internamento e injeção

E lá em Serra Pelada, ouro no meio do nada

Dor de barriga desgraçada resolveu me atacar

O show estava começando e eu no escuro me apertando

E autografando sem parar

REFRÃO

Muitas mulheres eu amei e com tantas me casei

Mas agora é Raul Seixas que Raul vai encarar

Nem todo bem que conquistei, nem todo mal que eu causei

Me dão direito de poder lhe ensinar

Meu amigo Marceleza já me disse com certeza

Não sou nenhuma ficção

E é assim torto de verdade com amor e com maldade

Um abraço e até outra vez

*** A “Monalisa” de suas obras, é sempre objeto de variadas interpretações. A letra de Gita pode ser vista de cunho amoroso possessivo, do ponto de vista narcisista ou até mesmo e principalmente do ponto religioso, onde Deus revela exercer forças superiores como Criador de tudo. Mas, de um modo geral, procurou mais enaltecer a estima, de que podemos ser maiores e melhores:

– Eu que já andei pelos quatro cantos do mundo procurando, foi justamente num sonho que Ele me falou

Às vezes você me pergunta

Por que é que eu sou tão calado

Não falo de amor quase nada

Nem fico sorrindo ao teu lado

Você pensa em mim toda hora

Me come, me cospe, me deixa

Talvez você não entenda

Mas hoje eu vou lhe mostrar

Eu sou a luz das estrelas

Eu sou a cor do luar

Eu sou as coisas da vida

Eu sou o medo de amar

Eu sou o medo do fraco

A força da imaginação

O blefe do jogador

Eu sou, eu fui, eu vou

Gita! Gita! Gita!

Gita! Gita!

Eu sou o seu sacrifício

A placa de contra-mão

O sangue no olhar do vampiro

E as juras de maldição

Eu sou a vela que acende

Eu sou a luz que se apaga

Eu sou a beira do abismo

Eu sou o tudo e o nada

Por que você me pergunta?

Perguntas não vão lhe mostrar

Que eu sou feito da terra

Do fogo, da água e do ar

Você me tem todo dia

Mas não sabe se é bom ou ruim

Mas saiba que eu estou em você

Mas você não está em mim.

Das telhas eu sou o telhado

A pesca do pescador

A letra A tem meu nome

Dos sonhos eu sou o amor

Eu sou a dona de casa

Nos pegue pagues do mundo

Eu sou a mão do carrasco

Sou raso, largo, profundo

Gita! Gita! Gita!

Gita! Gita!

Eu sou a mosca da sopa

E o dente do tubarão

Eu sou os olhos do cego

E a cegueira da visão

Eu!

Mas eu sou o amargo da língua

A mãe, o pai e o avô

O filho que ainda não veio

O início, o fim e o meio

O início, o fim e o meio

Eu sou o início

O fim e o meio

Eu sou o início

O fim e o meio

*** Ave Maria das Ruas, retrata o amor, coragem e condescendência maternal, como algo divino da Mãe intercessora e na forma como queiram denominar. A música acaba sendo mesclada com oração:

No lixo dos quintais

Na mesa do café

No amor dos carnavais

Na mão, no pé, oh

Tu estás, tu estás

No tapa e no perdão

No ódio e na oração

Teu nome é Yemanjah (Yemanjah)

E é Virgem Maria

É Glória e é Cecília

Na noite fria

Oh, minha mãe

Minha filha tu és qualquer mulher

Mulher em qualquer dia

Bastou o teu olhar (Teu olhar)

Pra me calar a voz

De onde está você

Rogai por nós

Ooooh, Ooooh!

Minha mãe, minha mãe

Me ensina a segurar

A barra de te amar

Não estou cantando só

Cantamos todos nós

Mas cada um nasceu

Com a sua voz,

Ooooh, Ooooh!

Pra dizer, pra falar

De forma diferente

O que todo mundo sente

Segure a minha mão

Quando ela fraquejar

E não deixe a solidão

Me assustar

Ooooh, Ooooh!

Minha mãe, nossa mãe

e mata minha fome

Nas letras do teu nome

Ooooh, Ooooh!

Minha mãe, nossa mãe

E mata minha fome

Nas letras do teu nome

Ooooh, Ooooh!

minha mãe, nossa mãe

E mata minha fome

Na glória do teu nome.

Uma foto que gosto muito seria com sua ideia de expressar crítica ou consciência às pessoas, sem nunca deixar de ser atual, em relação à música Dentadura Postiça, que ele elenca várias coisas que sobem e descem, tal como o preço (referência político-econômica), o nível em sentido amplo e, na parte da subida, escrever duas palavras mencionadas individualmente na música, mas que dá conotação religiosa na foto, se você unir as palavras Cristo (pro céu) + Chama (do mal) = Cristo chama, ou seja, o ato de cada um morrer e ressuscitar ao lado do Pai.

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*** Confira outras músicas conhecidas e que tanto gosto:

Todas as letras extraídas do site http://www.letras.mus.br

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