Guernica – Guerra na Pintura e na Poesia

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Quem puder apreciar a mostra “Picasso e a Modernidade Espanhola”, notará de forma nítida que o pintor cubista individualizava os significados de cada parte de sua obra e, observando seus rascunhos para Guernica, por exemplo, é de se notar claramente que cada figura era desenhada isoladamente para depois ser juntadas às demais partes da pintura para ser composta numa só obra.

Portanto, a análise de minhas observações sobre o significado de Guernica se fará praticamente sob o mesmo enfoque:

Lado esquerdo da pintura:

Observa-se o touro, significando a brutalidade, a bestialidade humana e as trevas.

A mãe grita porque seu filho, que está em seu colo, morreu.

O soldado morto segurando uma espada quebrada, significando a tentativa fracassada no combate à guerra, assim como o enfrentamento em momento difícil, movimento violento alimentado pelo próprio Homem, ou seja, seu semelhante.

Centro da pintura:

Ali está a figura do cavalo agonizando o povo.

Logo acima do cavalo, há uma figura assemelhada ao “Olho da Providência”, vulgarmente conhecido como “Olho que Tudo Vê”, deslocada da pirâmide (detalhada adiante), deslocamento este representando o distanciamento do Homem às vontades de Deus que, ainda assim observa as atrocidades humanas.

Aparece também a imagem de uma mulher fugindo por debaixo de outra pessoa; os refugiados.

Por detrás da pintura (fundo):

A imagem de um homem que parece estar sendo dominado pelas chamas de um prédio atingido pelos atos de guerra.

Há ainda, um formato triangular, centralizada na obra, significando pólos de tantas teorias e religiosidades, etc. Vejamos:

  • No campo psicológico, representa o id – o ego – e superego;
  • Na área jurídica, a formação do processo, formado pela relação entre autor – juiz – e réu;
  • No cristianismo representa o Pai – o Filho – e o Espírito Santo;
  • Na Wicca e tradições celtas, as três pontas também muito se faz lembrar a triquetra, representando a Grande Mãe (a Virgem, a Mãe e a Anciã) ou ainda, as estações do ano (antes divida em três períodos), bem como a interpretação de proteção e eternidade;
  • Na relação temporal, representa o passado – o presente – e o futuro;
  • E ainda pode enfatizar seu movimento cubista, focado na utilização de formas geométricas nas pinturas.

Uma ave, de bico aberto, parece ter sofrido os efeitos da guerra, de nada adiantando possuir asas, como representação da liberdade tolhida.

Em linhas gerais:

Mas extremidades, as chamas que se propagam de um lado, provocam fumaça saindo do outro, em substituição ao rabo do touro, denotando que uma população local inteira (cercada) era atingida.

O quadro foi pintado todo em preto e branco para retratar a guerra, algo extremamente violento, triste, cruel, sem vida, que transmite o desespero.

Estas são minhas principais análises de Guernica.

Para arrematar, registro, pois, o poema Os dois espanhóis, de Auta de Souza (1876 – 1901):

Quando me lembro dos mortos de Guernica

Ceifados, com tal frieza e tal maldade,

Por um espanhol que, hoje, se certifica

De que foi o algoz de toda uma cidade,

Sinto uma dor imensa que me caustica

E me induz a ter ternura e piedade

Por este insensato que, ora, triste fica,

Por ter agido com tanta crueldade…

Em vista disto, peço aos que me acompanham

Que orem para livrá-lo dos grilhões que arranhem

Seus pés, feridos, que sangram a cada passo,

Pois, se Guernica, a nós todos fere tanto,

Também nos leva a mirarmos com encanto

A obra-prima do genial Picasso.

O poema de uma única estrofe, de 14 versos, com rimas e sílabas poéticas livres, ressalta a crueldade e a dor pelos mortos da guerra de Guernica, na Espanha, mencionando também Pablo Picasso que sentira duramente os efeitos da tragédia e do também espanhol Francisco Franco que comandou a guerra na cidade.

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